Meu café ainda não esfriou. E o seu?
Uma resenha de “Antes que o café esfrie 2”
Quando descobri que existia uma continuação de “Antes que o café esfrie”, fiquei ansiosa em tê-lo logo em minhas mãos para que pudesse saborear cada aspecto destas novas histórias. Cada grãozinho, escolhido a dedo por Toshikazu Kawaguchi; todo o paciente processo de moer os grãos; todas as xícaras que foram usadas para servir esta obra que desceu pela minha alma como um dos mais deliciosos cafés.
Parece exagero, eu sei, começar a resenha assim. Mas o que posso fazer quando não tenho como, ou porquê, esconder meu encanto por este universo do Café Funiculí Funiculá?
Caso você não tenha lido minha resenha do primeiro livro, eis aqui um breve resumo: em certo café subterrâneo no Japão, existe a lenda de que um café especial, tomado sob certas circunstâncias, pode levar o cliente a uma viagem no tempo. Nesta continuação, conhecemos mais quatro pessoas que se aventuram nesta jornada de busca por respostas, acertos do passado, ou, apenas, para se despedirem. Um melhor amigo atordoado por uma mentira, um filho envergonhado, um namorado que busca a felicidade da namorada e um homem que deseja presentear sua amada.
Com uma escrita deslumbrante, que remete à teatralização, e apenas 180 páginas, o autor nos carrega a mais viagens temporais. No início, acreditei que o rumo fosse ser de previsibilidade. Queimei a língua com a quentura do meu engano. Contrariando o aspecto previsível do primeiro livro, todas as dúvidas nas quais, talvez, nem pudéssemos ter pensado, são respondidas de maneira surpreendente e fazem todo o sentido. A mulher de branco, o tempo do café esfriar, quem realmente são os personagens principais. Kawaguchi foi capaz de moer ainda mais os grãos da trama principal e o gosto permaneceu tão saboroso quanto era.
As personagens continuam tão interessantes como no primeiro livro, agora, mais maduras e com mais aspectos a se considerar. Ainda assim, mesmo sem os personagens antigos nas cenas das viagens, o autor consegue recobrar essa sensação de familiaridade. Os novos heróis, com novas tramas, são tão interessantes que eu não pude decidir uma história mais impactante.
O ambiente, como sempre, é muito bem reverberado na escrita. É preciso prestar atenção aos detalhes para que se faça essa associação. Contudo, assim que se nota, a obra fica ainda mais charmosa. Além disso, diferentemente do primeiro livro, tive sensações mais fortes, não apenas pelas novas descobertas, mas pelos temas abordados. Temas, estes, que, talvez, pudessem ter sido melhor desenvolvidos, considerando-se sua seriedade. Contudo, compreendo que nem sempre a profundidade é o melhor caminho.
Minhas recomendações para a leitura: prepare uma boa xícara de café (ou chá, se você for desses), um cantinho aconchegante e, acima de tudo, não leia o organograma ao final que explica as relações entre os personagens. Quando o li, durante a metade da leitura, recebi a confirmação de uma teoria que eu gostaria de que fosse respondida durante a história.
Mais uma vez, espero poder viajar novamente por estas páginas no futuro. Espero poder mudar minhas opiniões, porque, no fundo, sinto que não pude provar do verdadeiro sabor forte deste café preparado por Kazu.
Antes que o café esfrie 2: novas e emocionantes viagens no tempo, teve sua primeira publicação em 2017. O livro da editora Valentina, lido para esta resenha, é uma edição de abril de 2023. A obra conta com a tradução de Jefferson José Teixeira, design de capa por Raul Fernandes e diagramação pela FQuatro Editoração.
Por Beatriz Pagani; blitterae

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