Resumo, contextualização e análise crítica de Dom Casmurro
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Dom Casmurro, escrita por Joaquim Maria Machado de Assis, mais conhecido apenas por Machado de Assis, é uma obra que retrata a alta sociedade brasileira, com foco no Rio de Janeiro, dos anos 1900. Considerada terceiro romance da “trilogia” realista machadiana, a obra se aprofunda no romance psicanalítico do personagem principal do conto do ponto de vista dele mesmo. A obra está sob domínio público - seu PDF apresenta 139 páginas e 148 capítulos curtos que nos apresentarão a história de vida de Bento Santiago.
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Publicado em 1900, esse clássico da literatura estampa a alta sociedade carioca da época de maneira crítica. O autor aborda questões como o ciúmes, a religiosidade e o amadurecimento de personagens a partir da psicanálise do protagonista, que narra sua história mostrando seu ponto de vista acerca de si mesmo, das pessoas que fizeram parte de sua vida e das relações sociais que estabeleceu com elas.
Por ter sido escrito durante o Segundo Reinado (1840-1889), é interessante saber sobre certos acontecimentos importantes ocorridos durante tal período, não tão somente para a devida análise da obra, mas, também, para a história do país. Uma dessas questões é a atuação de dois partidos políticos, o Partido Liberal e o Partido Conservador. Apesar de denominações distintas, as pessoas da época costumavam dizer que ter um ou outro no poder era a mesma coisa. Ou seja, apesar das poucas diversidades, ambos os partidos, agregados a elite brasileira, possuíam mentalidades progressistas, autoritárias e patriarcais. Ademais, esse período foi marcado pela política assinalada do denominado “parlamentarismo às avessas”. Veja bem, o Parlamentarismo é, resumidamente, um tipo de governo constituído por ministros que formam o parlamento. Este exerce o Poder Legislativo enquanto fiscaliza o Poder Executivo. No Segundo Reinado não era esse o caso: o Poder Legislativo não nomeava o Executivo, porque era subordinado a ele. Ou seja, Dom Pedro II era o “mandachuva”. Esse momento histórico foi, ainda, marcado pelo conflito da Guerra do Paraguai, pela abolição da escravatura, pela Era Mauá - período de grande desenvolvimento econômico-industrial e pelo alto desenvolvimento do café, com destaque para o interior paulista.
Quanto ao Movimento Literário, apesar de apresentar certas características românticas, o livro se enquadra no período Realista. O Realismo, de um modo geral, é caracterizado pela oposição ao exagero sentimentalista do Romantismo, período o qual sucedeu. Ele teve início com a publicação de Madame Bovary, em 1857, na França. Esse momento foi de desenvolvimento da burguesia, - entrementes II Revolução Industrial - necessitada de uma arte que a representasse, ou seja, de caráter popular, racional e científico. A urbanização massiva, o crescimento desordenado das cidades, o salto tecnológico e científico e o nascimento do Positivismo - Teoria Evolucionista de Charles Darwin - marcaram esse momento de salto social e, consequentemente, de transição artístico-literária. As principais características desse movimento são a impessoalidade, o esteticismo, descrições e críticas sociais, a valorização da objetividade e dos fatos, o fim de idealizações, o surgimento da ciência e do determinismo, a verossimilhança e a caracterização minuciosa. No Brasil, teve início em 1839 com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, outra célebre obra machadiana. Machado de Assis, Raul Pompéia e Adolfo Caminha são exemplos de escritores do Realismo brasileiro.
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A história começa com Bento Santiago contando de onde surgiu o nome do livro. Certa vez dentro de um trem deparou-se com um jovem poeta. Este, pediu-lhe que escutasse sua poesia e Bentinho, cansado, acabou por dormir durante o falatório, o que estressou o jovem, levando-o a apelidar-lhe “Dom Casmurro”: Dom, título carregado apenas por nobres; casmurro, presunçoso. Após isso, ele explica sobre a história do livro e porque decidiu escrever. Bentinho quer, como ele mesmo esclarece, “atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência”. Uma curiosidade é que Bento tentou construir a casa onde morava durante a escrita do livro tendo como base a casa onde passou a infância e adolescência, da rua de Matacavalos.
Conforme os curtos capítulos vão sendo lidos, nos deparamos com descrições isoladas de todos os personagens importantes na vida do narrador e, consequentemente, para o livro (consultar dicionário de personagens, mais abaixo). Adiante, Bentinho apresenta um pouco de sua relação com Capitolina, seu grande amor. Ele narra o convívio que têm desde crianças, como Capitu sempre fora inteligente, curiosa, disciplinada e dona de uma beleza exuberante. Conforme os anos vão passando, Bentinho se aproxima da idade de cumprir a promessa que sua mãe fez em seu nascimento: caso ela fosse abençoada com um filho, ordenaria um padre. Quando Bentinho entende seus sentimentos por Capitu e descobre reciprocidade, eles procuram por soluções para que ele não precise ir ao Seminário. José Dias, o agregado, tenta ajudar. Não encontrando soluções rápidas, Bentinho vai ao Seminário com a promessa a Capitu de que ele retornaria e que se casariam.
No Seminário, nosso protagonista conhece Escobar, rapaz muito querido por todos e que logo se torna seu melhor amigo, enquanto Capitu e Dona Glória tornam-se mais próximas. Os rapazes conversam sobre tudo mas, principalmente, sobre a falta de desejo mútua que têm em tornarem-se padres. Nisso, ao explicar para Escobar sobre a promessa de sua mãe, o amigo lhe dá uma solução: Dona Glória não prometeu que faria do filho padre, apenas que alguém seria ordenado padre caso ela tivesse um filho. Então, um filho de escravizados é mandado ao Seminário no lugar de Bentinho.
Passados alguns anos, Bentinho retorna de São Paulo, onde se formou em direito, e se casa com Capitolina. Escobar, depois de se tornar comerciante, se casa com Sancha, amiga de Capitu, com quem tem uma filha - chamam-na Capitolina em homenagem a amiga. Nesse período, o casamento do casal protagonista passa a se desestabilizar, pois não estão conseguindo ter filhos. Após um tempo, têm um menino, a quem chamam de Ezequiel, primeiro nome de Escobar.
Alguns capítulos adiante, Escobar morre afogado no mar, e é neste momento que tudo desanda de vez. Durante o velório do morto, Bentinho afirma ter visto os olhares de Capitu ao corpo, como seus olhos diziam todos os sentimentos românticos que possuía pelo defunto. Então, Bento, relembrando momentos inquietantes - como quando encontrou com o amigo sozinho com Capitolina em casa - conclui a traição.
Ele se afasta da esposa e do filho aos poucos, e vai traçando semelhanças entre o menino e o falecido amigo, chegando a conclusão de que Ezequiel não pode ser seu filho. Um tempo depois, Bento quase chega a matar o filho com veneno no café, e diz ao menino que não é seu pai. Capitu aparece, confronta e é confrontada. Ela e o filho vão morar na Europa para que a separação não cause burbúrios. O tempo vai, e os demais personagens vão falecendo aos poucos: Dona Glória, Tio Cosme, prima Justina e José Dias - não exatamente nessa ordem. Sancha está no Paraná com a filha desde a morte do marido. O filho de Santiago, Ezequiel, retorna, e traz consigo o aviso da morte da mãe. Volta para a Europa e acaba morrendo de febre tifóide em Israel, durante uma viagem com amigos. Bento Santiago termina o livro sozinho.
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Não seria surpresa começar dizendo que a escrita, o desenvolvimento de enredo e a gramática de Machado de Assis são impecáveis. O autor detém de uma capacidade tão única ao ponto de suas obras serem inconfundíveis e Dom Casmurro ser considerada obra clássica mundial. Machado é capaz de prender qualquer um com os usos brilhantes de funções de linguagem e de outros mecanismos da literatura, como a intertextualidade e a metalinguagem, presentes em trechos como o do capítulo LXI, “A Vaca de Homero”. Mesmo para quem não é acostumado a esse tipo de escrita mais elaborada, o mínimo de esforço permite compreender o que está acontecendo, embora as frases mais complexas necessitem de mais cuidado, atenção e até paciência.
Quanto ao desenvolvimento do enredo e das personagens, extraordinário e sinônimos definem minha opinião. Os capítulos são incrivelmente coesos e a intercalação entre capítulos do passado, do presente e breves apontamentos sobre o futuro nos permitem conhecer um pouco mais da história de vida e da pessoa de Bentinho, apesar de entrarmos em contato com a imagem que o próprio autor deseja passar. As demais personagens têm suas singularidades e importância extremamente particulares para a história. Temos o exemplo de Dona Glória que, com o tempo, torna-se mais acanhada, se vai afastando do filho e da nora e deixa sua comunicatividade de lado. Uma pena não conhecermos o lado dela da história.
Outro aspecto muito presente em obras realistas no geral, é a crítica social. Machado de Assis trabalhou temas como o ciúmes e a religiosidade. No primeiro caso, temos o narrador-personagem, que, não somente admite sentir ciúmes extremo, como também detalha esses momentos de ciúmes. Esse sentimento é tão absurdamente enfático que Bento chega ao ponto de querer matar o próprio filho, o que demonstra como o ciúmes apenas evoluiu de capítulo em capítulo. No segundo caso, percebemos que, ao decorrer do romance, certa personagem não se demonstrou tão religiosa assim. Que tipo de cristão cogita, ou melhor, beira a quase prática de querer matar alguém? Outros temas também poderiam entrar em questão, como o patriarcado e a dinâmica de vida da alta classe carioca. Entretanto, não enxerguei tamanho aprofundamento nestes como naqueles comentados. E, sinceramente, não vejo um motivo para que devessem ter sido mais desenvolvidos, uma vez que o foco era aquilo que permeava a vida privada de Bento.
Agora, a questão mais polêmica da obra e, provavelmente, de toda a literatura brasileira: traiu ou não traiu? Bem, na minha opinião e partindo das informações que temos, não.
O nome do livro pode vir a ser uma pista da verdadeira personalidade de Santiago. Dom casmurro significa introspectivo, teimoso. Durante a leitura, acompanhamos um pouco dessa introspecção do autor e notamos sua dificuldade e não apreciação em relacionar-se com muitas pessoas, além de preferir permanecer com dúvidas sobre certos assuntos ao invés de questionar. A própria suspeita de traição é um exemplo - Bento preferiu se afastar a compartilhar seus sentimentos com a esposa ou, até mesmo, a confrontá-la sobre o que, supostamente, viu. Eles apenas conversam sobre após o incidente do café.
Ademais, a escrita deixa clara a tomada de partido, afinal, por que ele escreveria um livro se auto declarando errado? Durante vários momentos na obra podemos perceber como Bento não tem completa certeza do que está dizendo, seja direta ou indiretamente. Isso acontece, principalmente, pela época de acontecimento dos fatos e pela época de escrita do livro: o autor explicita que muito tempo já se passou e que sua memória não é das melhores.
“Pois, senhor, não consegui recompor nem o que foi nem o que fui”. CAP II
Embora, no fim, eu acredite que Capitu não traiu, não posso embasar meus argumentos com total certeza. Eles, apesar de sólidos, possuem um único empecilho que quebra a ponte de ideias. Isso porque nem eu, nem você, nem ninguém é capaz de “acertar a resposta” sem os outros lados da história. Sim, os outros lados. Capitu, apesar de ser a peça essencial para isso tudo, está do lado de dentro da situação e, assim como foi com Bento, ela também poderia escrever seu lado tomando partido próprio. E quanto ao agregado? A mãe? Ao próprio Escobar, também vítima do ciúmes descontrolado de Bento? Eles não mereceriam ter a oportunidade de espelhar os lados deles?
Apesar de acreditar que não exista como ter uma resposta a isso - mesmo no fundo acreditando que Capitu não traiu Bentinho - sou completamente adepta ao desfecho de Dom Casmurro. Afinal, mesmo mais de 100 anos depois, a obra não perdeu sua essência e ainda causa intriga entre os velhos e novos admiradores do trabalho exepcional de Machado de Assis.
“Eu confessarei tudo o que importar à minha história”. CAP LXVIII.
E você, o que achou da obra e da minha análise?
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Enredo: 1/1
Desenvolvimento de personagem: 1/1
Coesão e coerência: 1/1
Pertinência do tema: 1/1
Desfecho: 1/1
Nota final: 5/5
Muito satisfeita :)
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Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 29 de setembro de 1908. Considerado por muitos estudiosos como o maior nome da literatura brasileira, seus livros se tornaram clássicos e, hoje, são lidos em diversas traduções pelo mundo.

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