“Homem no Escuro” não é só insônia e delírios

  Com uma escrita envolvente, Paul Auster criou uma harmoniosa sinfonia de palavras 

"Homem no Escuro", de Paul Auster. Foto de arquivo pessoal.


“Estou sozinho no escuro, faço o mundo dar voltas dentro da minha cabeça, enquanto enfrento mais uma noite de insônia, mais uma noite branca no vasto deserto americano”. Homem no Escuro; Paul Auster

Dia 15 de janeiro de 2024, segunda-feira. Eu deixei que meu corpo, cansado do dia árduo que havia acabado de enfrentar, desmoronasse na cama. Me enrolei nos lençóis após afofar o travesseiro e abraçar minha pelúcia já quase despreenchida das espumas. Então, só então, fechei meus olhos para descansar e impedir que minha mente continuasse funcionando. 

Ela, todavia, não aceita esse tipo de comportamento. Parece combinado, pois, assim que fecho os olhos, minha cabeça se abre às possibilidades imaginativas que a rodeiam. Neste dia em específico, penso no livro que havia finalizado, “Homem no Escuro”, de Paul Auster. Imediatamente me comparo ao protagonista, August Brill, que no início da narração diz não gostar de escrever histórias, mas preenche as páginas criando uma delas e, em seguida, se afunda na narração de sua vida até que parasse naquela cama da casa de sua filha. 

Até porque, todos somos uma história que está sendo contada por nós mesmos. 

Logo de início me apaixonei pela escrita estupenda de Paul Auster. Nunca li outras obras do autor, mas esta me passou uma impressão de maestria em domínio das palavras e construções de ideias. Os detalhes de cada história contada não são necessariamente relevantes, mas são tão interessantes que, hoje, sou capaz de lembrar de cada aspecto contado no livro. 

Os sentimentos, os pensamentos, as reações, as descrições, os detalhes, as referências. Um minueto do mais profundo desejo de guardar todas as palavras de Paul Auster. É tudo tão magnético e inteligente que, talvez, eu tenha experienciado um pouco da incapacidade de pegar certos pontos. Sinceramente, me senti uma azêmola, e, por isso mesmo, gostaria de me informar mais sobre as citações e alusões que o autor usou, seja a outros livros, filmes ou pessoas. 

Além disso, o desenvolvimento da história é, no mínimo, surpreendente. A narração é como uma maré, você acredita que tudo bem ir mais afundo, ela está leve, é fácil se movimentar. Não há motivos para se preocupar, pois você está no controle. De repente, ela te engole, te submerge, e você se afoga na sua própria quebra de expectativa.

O que deveria ser um homem contando uma história para si mesmo e relembrando o passado, vira um museu de uma vida intensamente vivida. August Brill, um crítico literário aposentado, que perdeu a esposa e passou a viver na casa da filha única após um acidente de carro, é um narrador cativante. Não por uma simpatia acolhedora, mas por uma sinceridade avassaladora e, certas vezes, desconcertante, que deixa o leitor em um estado dependente, ansioso por mais daquelas memórias angustiantes, mas gratificantes. 

No fim, “Homem no Escuro” é mais do que a história de homem com insônia e que delira de madrugada enquanto se distrai com narrações para ele mesmo. É uma vida que te suga mais e mais a cada página, com as palavras que muitos de nós podemos não saber que estávamos procurando.

“Homem no Escuro”, de Paul Auster, foi publicado inicialmente em 2008 pela Companhia das Letras. O livro compõe a ficção da literatura norte-americana, tem 152 páginas e está disponível para compra na Amazon e no site da editora. 


Por Beatriz Pagani; blitterae



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