O café esfria mais cedo para algumas pessoas
Em apenas 207 páginas, Kawaguchi narra as histórias de quatro pessoas que decidem sentar-se na cadeira de um café subterrâneo e tomar um café especial que pode levá-las a qualquer momento no tempo. Isso, contanto que todas as absurdas regras da viagem sejam respeitadas. Um casal de namorados prestes a romper; marido e esposa à beira do último momento memorável para ambos; duas irmãs marcadas pelo passado mal resolvido, e mãe e filha ansiosas pela voz uma da outra.
Decidi começar Antes que o café esfrie pois estava em uma tremenda ressaca literária - praticamente três meses sem ter contato com um livro, que não fosse de viés acadêmico, quase me sufocaram. Antes de iniciá-lo, tentei ler outros dois, cujos títulos não nos interessam no momento. O que realmente importa, é que essa obra japonesa foi capaz de me fazer sair da ressaca, e eu a li tão rapidamente quanto meu café poderia ter esfriado.
O primeiro aspecto que me chamou atenção foi a escrita. Apesar de estar (quase) acostumada a ler mangás, as famosas histórias em quadrinhos japonesas, este foi meu primeiro contato com uma prosa japonesa. Por ser ainda o começo de uma nova literatura para mim, não sei dizer se é a escrita característica do autor ou algo mais geral no Oriente. Apenas sei que é realmente diferente de toda escrita que já vi no Ocidente. Em alguns momentos, a objetividade das informações me surpreendeu, uma vez que livros com esse estilo de enredo tendem a criar longas ambientações, acostumar o leitor aos personagens e à história. Apesar do choque inicial, entretanto, não achei que essa assertividade agravou minha experiência literária. Ao contrário: acredito que tive ainda mais a oportunidade de trabalhar minha imaginação e de dar vida ao café Funiculi Funicula.
Não apenas a objetividade, mas os toques de humor, a ironia e os puxões de orelha discretos que o autor dá tornam a experiência ainda mais interativa. Kawaguchi conseguiu criar uma linguagem suficientemente esmiuçada, aconchegante - como o ambiente do café -, e viva - para combinar com os elementos humanos.
Linguagem, essa, que foi ótima para, mesmo que em páginas enxutas, fazer o leitor se apaixonar pelos personagens, independentemente de quem sejam, de onde tenham vindo e de o que tenham feito. Cada um deles recebeu seu devido tratamento e Kawaguchi foi sagaz ao nos confundir sobre o grau de importância que eles teriam para o desenrolar da história. No início, o leitor pode se questionar sobre muitos aspectos, mas nada ficará sem resposta, porque foi tudo tão bem amarrado quanto o avental de garçonete de Kazu.
Quanto ao tema, ele já foi cansativamente abordado por diversos autores e programas televisivos. Outlander, Novembro de 63 e Dark são alguns bons exemplos. Por isso, devido a essa recorrência, algumas revelações do enredo podem ser nem um pouco chocantes, e é bem provável que as suposições do leitor sejam corretas do início ao fim. Essa previsibilidade é um aspecto que pode estragar a leitura para aqueles que buscam uma experiência emocionante. Contudo, a leitura ainda é válida, pois o que faz a grande diferença aqui é como o autor abordou essa questão.
Assim, o que mais encanta na obra não são as peculiaridades para se viajar no tempo. Também não é a escrita, por mais marcante que seja. O que realmente cativa em Antes que o café esfrie é a humanidade das personagens. Elas deixam de falar o que deveriam e agem contra o que queriam ter feito. Elas vivem situações muito diferentes umas das outras e, por isso, cada uma delas tem uma percepção sobre a vida, experiências que as levaram a ser quem elas eram no momento em que decidiram sentar naquela cadeira e viajar no tempo. No fim, as personagens podem até ter bebido do mesmo café, servido no mesmo bule, mas o tempo levado para que a bebida esfriasse foi mais curto para alguns do que para outros. E está tudo bem.
Não sou capaz de frequentar o Funiculi Funicula, muito menos de tomar esse café especial e fugir do presente, mas tive a feliz oportunidade de viajar pela história de Kawaguchi. Espero, após essa experiência, que as regras da viagem no tempo do café não se apliquem à leitura da obra, pois eu realmente gostaria de revisitá-la.
Antes que o café esfrie teve sua primeira publicação em dezembro de 2015. A obra japonesa de Toshikazu Kawaguchi é, na verdade, uma adaptação de uma peça de teatro escrita por ele mesmo. O livro da editora Valentina, lido para esta resenha, é uma edição de janeiro de 2023. Por fim, a obra conta com a tradução de Priscila Catão, diretamente da versão em inglês, design de capa por Raul Fernandes e diagramação por Kátia Regina Silva.
Beatriz Pagani

Muito bom!! Parabéns pela resenha! (Obs: é sua vez de me chamar!)
ResponderExcluirlegal bia!
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