Madame Bovary e o destino do infortúnio
Apresentação da obra
Gustave Flaubert é o escritor de uma das maiores obras clássicas mundiais, a polêmica Madame Bovary. Lançada em 2020 pela editora Principis, a edição aqui analisada tem 368 páginas, tendo sido traduzida diretamente do original em francês por Frank de Oliveira. A obra, ao ser publicada, sofreu tentativa de proibição por retratar a sociedade francesa na sua realidade, escancarando e atiçando as morais religiosa e social da época, 1858.
“Emma então procurava saber o que exatamente significavam na vida as palavras felicidade, paixão e embriaguez, que lhe tinham parecido tão bonitas nos livros”. (Cap. 5; parte 1).
Contextualização
Em 1857 a França era governada por Luís Napoleão Bonaparte, sobrinho de Napoleão I. Responsável por um golpe de estado em 1851, proclamou-se imperador, passando a ser chamado de Napoleão III. Ele era uma figura autoritária que almejava um império colonial.
Quanto ao Movimento Literário, o livro é considerado o precursor do período Realista. O Realismo é caracterizado, principalmente, pela oposição ao exagero sentimentalista do Romantismo, período o qual sucedeu. Publicado em 1857, na França, a obra se insere em um momento de desenvolvimento da burguesia, - entrementes I e II Revolução Industrial - necessitada de uma arte que a representasse, ou seja, de caráter popular, racional e científico. A urbanização massiva, o crescimento desordenado das cidades, o salto tecnológico e científico e o nascimento do Positivismo - Teoria Evolucionista de Charles Darwin - marcaram esse momento de salto social e, consequentemente, de transição artístico-literária. As principais características desse movimento são a impessoalidade, o esteticismo, descrições e críticas sociais, a valorização da objetividade e dos fatos, o fim de idealizações, o surgimento da ciência e do determinismo, a verossimilhança e a caracterização minuciosa. - Trecho retirado de uma de minhas resenhas; passível de modificações.
Análise crítica
Emma Bovary, uma leitora de romances que sonha com o amor representado nos livros, é desiludida após se casar com um oficial da saúde e ir morar em uma cidade pequenina da França entre os anos 50 e 60. Emma, ao se sentir extremamente entediada e decepcionada perante a ociosidade de sua nova vida, passa a buscar a felicidade no materialismo exacerbado e em romances extraconjugais. A obra é narrada em terceira pessoa por um narrador onisciente, o qual foi colega de turma de Charles Bovary, marido de Emma.
Uma curiosidade que, além de interessante, auxilia no entendimento da obra é o significado do termo “bovarismo”, o qual teve como raiz o livro em si. Ele se refere a pessoas que, insatisfeitas, têm tendências a fugir da realidade e a criar uma nova, sob perspectivas que jamais poderiam se enquadrar nas reais condições delas. Elas passam a falar e a se comportar como se essa nova visão fosse, de fato, verdadeira. Emma, apesar de estar fadada a uma vida pacata com Charles, cobre seus olhos com um “rose colored glass”, gravado pelas histórias romanescas que lia, por imagens das heroínas lindas que encantavam cavaleiros que fariam de tudo por amor.
A escrita de Flaubert não poderia ser mais envolvente. Os versos, atenciosamente escritos, evidenciam o cuidado do escritor ao transmitir sentimentos, sensações e pensamentos. O desenvolvimento, por outro lado, não me agradou completamente. Apesar de apreciar intensamente cenas descritivas, o autor se utilizou delas por demais, o que pode causar cansaço em certos leitores. O autor, por outro lado, é perspicaz ao trabalhar com o sublime, o implícito e, além disso, fazer o leitor roer as unhas ao brincar com suas emoções em uma gangorra de “vai ou não vai”. A curiosidade nos é atiçada constante e enfaticamente o que, particularmente, me foi agradável. Essa característica do suspeito, do implícito, do escondido me deixou extremamente ansiosa por mais.
Gustave Flaubert foi, de certa forma, delicado ao tratar da religião e da ciência no contraste entre dois personagens: o padre e o farmacêutico. Este, principalmente, é a própria personificação do pensamento iluminista, uma vez que os pensamentos e as conversas que tem com terceiros são, em maioria, sobre ciência e religião. A todo momento o senhor Homais, o farmacêutico, reflete sobre as morais religiosas, submetendo-as em detrimento do pensamento racional. Paralelamente, a ciência toma seu lugar ao sol ao ser tratada de maneira tão importante, mas desacreditada pelo público da época, o qual era fanático e supersticioso.
Finalmente, uma das personagens mais complexas que já tive contato na literatura. Emma Bovary não pode ser descrita por apenas um ou dois adjetivos, tão realista é a sua persona. A personagem cria no leitor um complexo de amor e ódio tão grande quanto a necessidade dela mesma em encontrar a felicidade. É praticamente impossível definir os sentimentos em relação a ela, sendo tão volátil, tão inconstante, tão autêntica em sua singularidade. Eles vão desde raiva e desprezo a auto-identificação e compreensão. Em minha opinião, aliás, um dos aspectos que podem gerar este compadecimento é Emma descarregar suas frustrações da languidez dos dias no consumismo; apesar de comprar cada vez mais, sua compulsão material nunca encontra um fim. Seria Emma um reflexo das personalidades contemporâneas?
“A sociedade de consumo consegue tornar permanente a instisfação”.
Zygmunt Bauman
Emma Bovary moldou toda uma vida utópica com base nos romances que lia e escapou da realidade a todo momento. Ela ainda se cansava rapidamente de tudo em que se envolvia: sua vida religiosa, seu casamento, sua família e, até mesmo, dos seus tão queridos amantes.
“Mas, à medida que se intensificava a intimidade de suas vidas, se estabelecia um desapego interior que a desprendia dele”.
Gustave Flaubert; Madame Bovary
A personagem esperava tanto dos outros que se decepcionava constantemente, o que a fazia agir de maneira medíocre e infantil. A história ainda é clara da influência das escolhas de Emma nas vidas de outras pessoas. Vivendo a vida dessa maneira, ela fazia todos os outros a sua volta sofrerem. Charles é, de longe, o melhor exemplo. Amava sua esposa; vivia elogiando-a, fazendo-lhe mimos, cuidando de tudo para que ela fosse feliz. Mas, para nossa heroína, nada disso era suficiente, simplesmente porque não era o tipo de demonstração de amor que ela queria e buscava.
Emma é uma pessoa efêmera que enjoa rapidamente de pessoas e situações. Ela procura felicidade em outros e em momentos específicos, quando deveria ser ela mesma a se fazer feliz. Emma buscou felicidade no improvável, mas encontrou seu infortúnio. A madame Bovary não fora apenas seu próprio veneno, mas dos outros também.
Essa é minha opinião, qual a sua?
Minha nota
4,5/5 :)
Sobre o autor
Gustave Flaubert nasceu em 1851, em Rouen, na França. Estudou Direito em Paris, mas não chegou a exercer a profissão. Madame Bovary, quando foi publicado, rendeu-lhe um processo, mas ele foi absolvido. O autor faleceu em 1880, na Normandia.

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