O descaso com os livros e a degradação da leitura no Brasil
“A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde”.
André Maurois.
Em "A leitura no Brasil: sua história e suas instituições”, Regina Zilberman relata sobre a progressão cronológica das obras literárias brasileiras. A autora afirma que a escrita surgiu com propostas comunicativas e, apenas em um longínquo futuro, as obras literárias seriam socializadas e teriam significados e funções para além do texto, lidando com uma instituição, uma técnica e uma tecnologia: a escola, a escrita e a fixação desta em um meio físico.
Zilberman salienta a importância de uma sociedade leitora, a qual é possível desde que as escolas sejam atuantes para que a escrita seja considerada um bem. Nesse âmbito, a autora acredita que isso ocorra em sociedades capitalistas, nas quais o capital cultural torna-se importante para a acumulação do capital financeiro. Dessa forma, há maior incentivo para a leitura, embora todos os cidadãos e cidadãs devam possuir condições financeiras para conseguir movimentar o mercado literário nacional. Uma utopia, considerando-se o atual cenário econômico e cultural brasileiro.
“O imediatismo tem apagado o interesse pela leitura. (...) Já não se tira mais tempo para ler. O jovem não tem mais separado esse tempo como outrora”,
afirma o Prof. Dr. Rodirlei Silva Assis no que se diz respeito à relação entre os estudantes do ensino médio e as obras literárias obrigatórias. De acordo com ele, não mais se quer ter o esforço de buscar se aprofundar nos livros, de trabalhar a interpretação em cima deles. Ele aponta, principalmente, a falta de interesse e de incentivo, por parte dos alunos e de mediadores, respectivamente. O mediador deve ser alguém com conhecimento, como um professor, que cative o apreço pela leitura. Rodirlei apresenta, outrossim, a falta de tempo, o imediatismo moderno e a preferência por estudar outros conteúdos em detrimento da leitura como principais empecilhos para o hábito da leitura no meio juvenil.
O professor acrescenta que os alunos tendem a acreditar que, por passarem o dia na escola estudando, estão lendo o suficiente. “Não é a quantidade da leitura, mas a qualidade. A análise e a interpretação de texto devem estar conjugadas na leitura”. Rodirlei menciona, ainda, o uso de resumos sobre as obras literárias. Apesar de serem um bom suporte para o entendimento destas, a sua apropriação indevida mata o interesse pela leitura. A manipulação de resumos seria, como afirma o professor, um estágio superficial da leitura e que, de acordo com uma pesquisa realizada pela USP, 70% da população brasileira permanece estagnada nesse estágio.
Rodirlei reforça que a construção contínua do conhecimento e do aparato da leitura é fundamental para que as pessoas não sejam enganadas. “A porta está aberta”; permanecer nas obras literárias não é obrigatório. Artigos, revistas, notícias, reportagens, livros didáticos ou literários: as opções são vastas. “Acho fundamental as palavras do apóstolo São Paulo. ‘Leia de tudo e apegue-se ao que é bom’. O leitor deve estar aberto às inúmeras leituras que aparecerão na sua frente. Com o passar do tempo cada um vai se encontrando, com aquilo que gosta mais de ler, seja um texto literário, jornal, revista. Se exponha a todos os tipos de texto, seja permeável, não tenha vergonha de ler”.
A situação geral também não alivia. Os últimos anos foram preenchidos por notícias, reportagens e pesquisas que apontam tanto o declínio da compra de livros quanto do hábito de leitura no Brasil. As mais recentes exibem dados cada vez mais preocupantes, que deveriam preocupar e levar à conscientização.
A pesquisa “Retratos da leitura no Brasil: porque estamos perdendo leitores” é uma das mais atuais que temos, tendo sido realizada no ano de 2020. Corporificada pelo Instituto Pró-Livro, a pesquisa denuncia que a porcentagem de leitores brasileiros caiu de 56% para 52% entre 2015 e 2019. Ou seja, em apenas quatro anos tivemos uma perda significativa de 4,6 milhões de leitores. Dentro desse número estão analfabetos, classes A, B e C, estudantes de ensinos médio e superior e pessoas que afirmam não ter tempo, ter falta de concentração ou que apresentam dificuldade para interpretar. Além disso, o excerto apresenta que o índice de leitura em crianças começa a cair a partir dos 11 anos, idade média na qual os livros escolares obrigatórios passam a ser mais “complicados”.
“Livros ficarão 20% mais caros com aprovação da reforma tributária”; “Brasil perde 4,6 milhões de leitores em quatro anos”; “Defenda o livro: a leitura como direito e a democratização do acesso ao livro”; “Aumento no valor do livro prejudicará uma nova geração de leitores”. Estas são notícias e matérias publicadas entre 2020 e 2022 que desanimam e fazem difícil de se acreditar que a situação possa melhorar quando se fala no quesito econômico. Afinal, ter a possibilidade de escolher comprar ou não um livro deveria ser um direito.
O atual panorama do índice de leitura no Brasil, de fato, não é o ideal. O Estado e a população deveriam estar alarmados para mudar esse cenário que parece não progredir. Entretanto, a esperança é a última que morre.
Políticas públicas de acesso ao livro são uma ótima opção que, se bem planejadas e implantadas, podem permitir mudanças amplas. Políticas públicas são, em síntese, um conjunto de decisões e ações do Estado que visam solucionar um problema em evidência na sociedade. Um exemplo é o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), lançado em 2006. De acordo com o site oficial do Ministério do Turismo, “Trata-se de diretrizes básicas para assegurar a democratização do acesso ao livro, o fomento e a valorização da leitura e o fortalecimento da cadeia produtiva do livro como fator relevante para o incremento da produção intelectual e o desenvolvimento da economia nacional. Elas têm por base a necessidade de formar uma sociedade leitora como condição essencial e decisiva para promover a inclusão social de milhões de brasileiros no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável”.
Outro meio de incentivar a leitura é manter o acervo de bibliotecas públicas constantemente atualizado. A pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” apresenta dados de que as pessoas estão frequentando cada vez menos as bibliotecas e um dos motivos é o estoque desatualizado de livros e artigos. Outros entrevistados também reclamam da carência de bibliotecas públicas próximas de onde vivem ou da falta de atividades culturais oferecidas.
Ademais, a venda ou a troca de livros usados pode ser muito benéfica. Livros que não agradaram ao leitor ou que não cativaram a ponto de serem guardados podem ser vendidos ou trocados por outros livros usados, seja com um conhecido, pela internet ou em sebos.
Àqueles que negligenciam a leitura por falta de tempo, o professor Rodirlei deixa um conselho: não importa se você possui apenas 5 minutos diários sobrando na agenda. Use esse tempo para ler. Rodirlei reforça que qualidade importa mais que quantidade. É necessário que haja interpretação das palavras, que se entenda o que foi lido e que se reflita sobre. Quando há ação com as palavras, há meditação, há reflexão. “Crie um cabedal, um suporte de leitura e de conhecimento de mundo maravilhoso. (..)levando em conta que a maioria simplesmente não lê, se eu tenho cinco minutos por dia para ler, fará diferença”.
“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem”.
Mario Quintana
Por Beatriz Pagani (Beatrice)


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